Algumas datas que marcam a vida de alguém: Aniversários (de vida, namoro, casamento, etc), formatura, um sonho ou desejo realizado, o nascimento de um filho, a perda de um ente querido, ou, no meu caso, a descoberta de uma doença incurável.
Foi o que eu pensei quando recebi o diagnóstico positivo para HIV, "Eu nunca vou me esquecer desse dia". Estranhamente, não recebi a notícia com desespero, não derramei lágrimas (apesar da vontade ter surgido inicialmente). Tive, naquele momento, um segundo pensamento. Mais importante que o anterior.
Sei exatamente como contraí o vírus. Sei de quem eu contraí o vírus. Há cerca de quatro meses conheci casualmente Ian e Fábio (os nomes aqui citados serão alterados por respeito, mesmo que muitos não o mereçam) no ponto de õnibus. Eles eram lindos, sedutores e, por coincidência, eram meus vizinhos. Conversamos no ônibus, o tesão era louco, e, quando dei por mim, estava no apartamento deles. Eu sempre sonhei em fazer sexo à três, seria a primeira vez. Fui envolvido por uma aura de sedução, uma teia difícil de escapar. Quando percebi estávamos transando. SEM CAMISINHA! Um deles gozou dentro de mim e eu gozei na boca do outro. Só minutos depois, quando o tesão se foi, eu percebi o meu erro. E, acredite, eu soube naquele momento que estava infectado. Pelas conversas deles eu soube que não fôra a primeira vez deles com outro cara e, duvido muito, que tenham usado camisinha, já que em momento algum eles falaram sobre o objeto. Eu havia cometido um erro fatal.
O irônico: Eles, como atores, apresentaram uma peça gay no dia seguinte e, ao chegar lá, recebi um kit contendo camisinhas, informativos sobre DSTs e os endereços do grupo Arco-íris onde as pessoas poderiam fazer teste.
Protelei o quanto pude, mas, por fim, fiz o teste hoje. O resultado positivo não me surpreendeu, eu já estava preparado pra ele. Não me abateu.
Ricardo, meu ex namorado, estava lá comigo. Seu resultado negativo reafirmou minha desconfiança quanto a Ian e Fábio, afinal, tirando meu ex eles foram os únicos com quem fui pra cama sem camisinha.
Porém, não dá pra culpar ninguém a não ser a mim mesmo. Não sei se eles conheciam a condição deles, mas eu transei porque eu quis. Ninguém me forçou a nada. Responsabilidade minha. Ou melhor, irresponsabilidade minha.
Logo eu, um cara bonito, estudioso, amante das artes e sem vícios (nem de beber eu gosto), me vejo agora vítima de uma doença terrível e sem cura. No entanto, não tão assustadora pra mim. Só preciso mesmo saber como vou lidar com isso daqui pra frente.
Esse blog vai me ajudar a não enlouquecer de vez. Mesmo que ninguém me leia, vai servir como válvula de escape pra mim.
Qual foi o segundo pensamento que tive? A doutora me disse que muitos pensam que vão morrer quando recebem o diagnóstico. Eu pensei diferente, eu pensei que eu vou viver. Cada dia, mas intensamente que o outro. Sem nunca, jamais, esquecer de me cuidar e cuidar dos que estão a minha volta.