domingo, 26 de dezembro de 2010

A primeira vez


A primeira vez que a gente faz sexo depois que descobre o HIV é muito similar ao momento em que perdemos a virgindade. Há o nervosismo, há o não saber o que fazer direito... E há o cuidado para quem está a seu lado na cama.

Estava muito preocupado com o Rodrigo, de verdade. Ainda mais pelo fato dele não saber sobre minha situação. Não deixei sequer que ele fizesse sexo oral em mim, mesmo sabendo que o risco dessa prática é menor. Porém, achei melhor não arriscar. Na medida do possível foi bem prazeroso, mas preciso conversar melhor com o médico sobre isso.

Se bem que aqui eu encontrei algumas informações importantes:

http://www.aids.org.br/assumidos/default.asp?pId=53

Estou ainda colocando as coisas em ordem dentro de mim. Por mais esclarecido que eu seja, não está sendo lá muito fácil de verdade. Ás vezes bate um medo...

Tenho conhecido pessoas na Internet na mesma condição que eu e conversar com eles, em especial com um paulista, está me fazendo muito bem. Quando o sufocamento beira o impossível, recorro aos amigos. E os desconhecidos nunca foram tão receptivos nesse momento. Feliz por estarem aí pra me ajudar...

Obrigado, meus novos amigos.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Então é Natal...

Então é Natal. Natal costuma ser a pior época do ano pra mim. Minha família é muito desunida e só se encontra mesmo em sua maioria em funerais. Em festas estão sempre longe, cada um na sua; e eu sempre acreditei no Natal como uma festa para a família. Mesmo pelo que comemoramos nesse dia.

Hoje estive inquieto. Ao encontrar Ian no MSN eu não resisti e conversei com ele. Tinha dito a mim mesmo que esperaria pelo início do ano, mas não deu. Falei que eu tinha certeza de que adquiri o vírus HIV após a noitada inconsequente que tive com ele e Fábio. Me surpreendi que tenha sido pego de surpresa. Como não o vi pessoalmente tive de acreditar que estava surpreso e assustado e que considerava seu Natal acabado. Eles não tinham um teste, portanto ainda têm dúvida. Eu tenho a certeza do diagnóstico positivo e no entanto não considerei meu natal acabado.
Porém, não consegui encarar minha mãe durante toda a noite de Natal e não consegui cear. Tinha vontade de conversar com ela. Mas descobri que vontade é diferente de coragem e fiquei calado.

Eu não falei, adoro minha mãe. Confio nela bastante. Mas falar sobre o HIV com ela é complicado, uma vez que minha própria mãe é portadora do vírus e o aceitou como uma sentença de morte; algo que eu não quero pra mim de maneira alguma.

Em todo caso, Feliz Natal aos leitores desse blog.

Se é que há algum...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Novo dia, novo ser


Hoje resolvi mudar o nome do blog. Ao invés de 'Vivendo com AIDS', resolvi colocar 'Vivendo com HIV'. Quando fui ao hospital escola da UFRJ, o chamado Projeto Praça Onze, conversei com a Dra. Narda, que me explicou a diferença. Eu tenho o vírus HIV, mas ainda não manifestei nenhuma doença que caracterize a AIDS. E assim pretendo ficar.

Ao chegar naquele prédio pichado e sujo no Centro do Rio, na Av. Presidente Vargas, pensei em voltar dali mesmo. Porém, de cabeça erguida, segui em frente. Fui bem recebido, bem atendido e, ao conversar com a Dra. Narda, quase tive um crise de choro. Mas as lágrimas ainda não saíram, não as permitirei sair. Conversei bastante com ela, sempre mostrando o quanto eu sabia e o quanto eu era ignorante com relação à minha doença.
Ela me explicou a natureza do Projeto Praça Onze, que busca voluntários virgens de tratamento com anti-retrovirais, pois os remédios só são ministrados pelo SUS quando a imunidade do paciente já está baixa. No caso da pesquisa, eles testam se o tratamento com remédios é ou não mais eficaz quando o CD4, ou teste que mede a carga viral no sangue, ainda está positivo. Ou seja, acima da média estabelecida pelos orgãos de saúde para início de tratamento.

O Ricardo esteve lá comigo, mesmo que hoje eu não tenha feito exame nenhum. Todavia, saí de lá com uma idéia fixa: a de conversar com o Ian e o Fábio sobre o que ocorreu entre nós... Mas ainda não tenho coragem pra isso. Como ainda não tenho coragem de conversar com o Rodrigo sobre isso.

Rodrigo é um rapaz fascinante que conheci a cerca de duas semanas e nós meio que estamos namorando. Eu o acho doce e interessante; tenho medo que ele venha a se afastar de mim. Vou esperar as festas de fim de ano e então converso com ele abertamente. Se ele gostar de mim, vai compreender minha condição.

Só não quero ficar sozinho.

Não tenho coragem, e também acho desnecessário, de contar nada a ninguém da minha família. Quem sabe o momento chegue algum dia, mas não é hoje. Não consigo para de pensar no momento em que recebi o resultado positivo. É só fechar meus olhos e relembro o olhar da doutora... Nem foi preciso ela dizer nada para que eu entendesse o que acontecera.

Se não fosse a chance de desabafar com o Ricardo, eu ficaria louco. Nosso namoro pode não ter dado certo, mas ele é o melhor amigo que eu jamais tive.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Uma data que não vou me esquecer...


Algumas datas que marcam a vida de alguém: Aniversários (de vida, namoro, casamento, etc), formatura, um sonho ou desejo realizado, o nascimento de um filho, a perda de um ente querido, ou, no meu caso, a descoberta de uma doença incurável.
Foi o que eu pensei quando recebi o diagnóstico positivo para HIV, "Eu nunca vou me esquecer desse dia". Estranhamente, não recebi a notícia com desespero, não derramei lágrimas (apesar da vontade ter surgido inicialmente). Tive, naquele momento, um segundo pensamento. Mais importante que o anterior.

Sei exatamente como contraí o vírus. Sei de quem eu contraí o vírus. Há cerca de quatro meses conheci casualmente Ian e Fábio (os nomes aqui citados serão alterados por respeito, mesmo que muitos não o mereçam) no ponto de õnibus. Eles eram lindos, sedutores e, por coincidência, eram meus vizinhos. Conversamos no ônibus, o tesão era louco, e, quando dei por mim, estava no apartamento deles. Eu sempre sonhei em fazer sexo à três, seria a primeira vez. Fui envolvido por uma aura de sedução, uma teia difícil de escapar. Quando percebi estávamos transando. SEM CAMISINHA! Um deles gozou dentro de mim e eu gozei na boca do outro. Só minutos depois, quando o tesão se foi, eu percebi o meu erro. E, acredite, eu soube naquele momento que estava infectado. Pelas conversas deles eu soube que não fôra a primeira vez deles com outro cara e, duvido muito, que tenham usado camisinha, já que em momento algum eles falaram sobre o objeto. Eu havia cometido um erro fatal.
O irônico: Eles, como atores, apresentaram uma peça gay no dia seguinte e, ao chegar lá, recebi um kit contendo camisinhas, informativos sobre DSTs e os endereços do grupo Arco-íris onde as pessoas poderiam fazer teste.

Protelei o quanto pude, mas, por fim, fiz o teste hoje. O resultado positivo não me surpreendeu, eu já estava preparado pra ele. Não me abateu.
Ricardo, meu ex namorado, estava lá comigo. Seu resultado negativo reafirmou minha desconfiança quanto a Ian e Fábio, afinal, tirando meu ex eles foram os únicos com quem fui pra cama sem camisinha.

Porém, não dá pra culpar ninguém a não ser a mim mesmo. Não sei se eles conheciam a condição deles, mas eu transei porque eu quis. Ninguém me forçou a nada. Responsabilidade minha. Ou melhor, irresponsabilidade minha.
Logo eu, um cara bonito, estudioso, amante das artes e sem vícios (nem de beber eu gosto), me vejo agora vítima de uma doença terrível e sem cura. No entanto, não tão assustadora pra mim. Só preciso mesmo saber como vou lidar com isso daqui pra frente.

Esse blog vai me ajudar a não enlouquecer de vez. Mesmo que ninguém me leia, vai servir como válvula de escape pra mim.

Qual foi o segundo pensamento que tive? A doutora me disse que muitos pensam que vão morrer quando recebem o diagnóstico. Eu pensei diferente, eu pensei que eu vou viver. Cada dia, mas intensamente que o outro. Sem nunca, jamais, esquecer de me cuidar e cuidar dos que estão a minha volta.